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Titular da Cadeira nº 12

Calçadas

 

Aonde vai chegar o “progresso”?

Outrora, e não faz muito tempo, as calçadas das nossas cidades eram lugares sadios, próprios e exclusivos para nós, pedestres.  Eram, ainda, ponto de encontro de pessoas que ficavam descontraidamente a perpetrar comentários sobre este ou aquele assunto, o presente ou o passado.

Nas cidades interioranas formavam-se, à noite, as mais variadas e divertidas “rodas”:  Nesta, alguns senhores comentavam sobre a vida política do município; mais à frente uma roda de senhoras falavam das traquinagens dos seus filhos; Naquela outra, jovens moças compartilhavam, entre si, das travessuras dos seus corações. Enquanto isso, a criançada brincava incessantemente, colorindo o cenário das praças, das ruas e das calçadas.

Mas isso é coisa do passado.  As cidades cresceram, a sociedade “evoluiu”, o progresso” chegou. E com ele veio, à tiracolo, a insegurança a imprudência a desconfiança e o desrespeito.

Hoje, em algumas calçadas de Fortaleza, por exemplo, os pedestres estão literalmente impedidos de usá-las. Quando não são utilizadas como estacionamento, centenas de restaurantes as usam como extensão dos seus próprios estabelecimentos. Pouca vergonha dos seus proprietários e, principalmente, dos nossos governantes que permitem esse abuso. Onde está o Código de Postura do Município que não coíbe tal absurdo? Onde está o direito de acessibilidade do deficiente físico e do idoso?

Pouco importa para eles! 

A verdade é que hoje temos que conviver com o risco e caminhar paralelamente pelo asfalto disputando com motoristas imprudentes e mal-educados o nosso direito de ir e vir.

Deixemos para lá, Fortaleza!

E hoje nas cidades do interior? Como se encontram as suas calçadas?

Ah! Lá o “progresso também chegou e as modernizou. Estão todas desertas. Já não há mais a alegria daquelas rodas. As pessoas se enclausuraram dentro das suas casas gradeadas.  Estão presas. A insegurança, a televisão e a internet contribuem, sobremaneira, para que homens, mulheres e crianças vivam individualmente a solidão das suas próprias vidas.

Ah,  “progresso !

Abilio, 18 mar 2011

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