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Cláudio César Magalhães Martins

Titular da cadeira nº 11

(Palestra proferida em 08.10.16, por ocasião de reunião da AILCA, na sede da Academia Cearense de Letras)

            No último dia 04 de outubro, comemorou-se a morte de S. Francisco de Assis que, na verdade,  faleceu na tarde  do dia 03 de outubro de 1226.

            Nascido em 1182 na comuna de Assis, Província da Úmbria, fértil região da Itália Central, filho mimado de pais abonados, Francisco notabilizou-se, na juventude, por sua boemia, esbanjando dinheiro em festas, banquetes e noitadas e "aprendendo coisas vergonhosas e detestáveis, cheias de excesso e de luxúria", conforme narração de Tomás de Celano, seu seguidor e primeiro biógrafo.

            Por volta de 1205, Francisco, entrando na igrejinha de São Damião, nos arredores de Assis, ao fitar o crucifixo, pareceu ouvir do Cristo crucificado o seguinte apelo: "Francisco, não vês que minha casa está sendo destruída ? Vai, então, e conserta-a para mim !" De início, Francisco interpretou esse apelo de forma literal, entendendo que devia reconstruir a igrejinha de S. Damião, onde se encontrava. Passou, de imediato, a angariar recursos para a obra, retirando peças de fazendas finas da loja de seu pai, Pietro di Bernardone, rico comerciante da cidade, e vendendo-as com esse objetivo.

            Este, enfurecido, foi queixar-se ao bispo, conforme o costume da época. O bispo tentou conciliar os dois, em vão. Francisco, em praça pública, despiu-se, devolvendo suas vestes ao seu pai.

            A partir de então, passou a viver de esmolas, pregando a palavra de Deus e não se descuidando de reconstruir a igrejinha de São Damião. Posteriormente, ajudou a reconstruir também as igrejas de São Pedro e Porciúncula.

            Seu exemplo de vida e sua pregação começaram a atrair seguidores, entre os quais Bernardo de Quintavalle, um rico burguês de Assis, que vendeu tudo para dar aos pobres, Pietro Cattani, que, mais tarde, o sucedeu na Ordem, e o Irmão Giles.

            Tendo reunido um grupo de seguidores, dirigiu-se a Roma a fim de obter do papa a autorização da primeira Regra para a fundação da Ordem, a qual prescrevia uma pobreza absoluta para os frades e para a Ordem. Lá chegando, foram ridicularizados pela corte de Inocêncio III devido à sujeira e à pobreza de suas vestes. Pouco depois, o papa teve um sonho, onde viu a Basílica de São João de Latrão prestes a desabar, sendo sustentada por um pobre religioso, que ele identificou como sendo Francisco.

Decidiu, então, recebê-lo, juntamente com seus amigos, e autorizou a Regra, não por escrito, permitindo apenas que pregassem e dessem socorro moral às pessoas, aconselhando que, se conseguissem bons frutos, voltassem a ele para que sua situação fosse regularizada.

            Chegando a Assis, instalaram-se numa cabana, dedicando-se ao cuidado dos leprosos, ao trabalho manual e à pregação,  vivendo de esmolas. Como surgiram novos seguidores, a cabana tornou-se pequena, e eles conseguiram do abade do mosteiro beneditino do Monte Subásio, por volta de 1210, o uso da capela de Porciúncula e de um terreno adjacente. Entre os novos amigos de Francisco estavam o Irmão Leo, seu amigo inseparável e futuro confessor, o Irmão Rufino, que, segundo a lenda, pregava até dormindo, o Irmão Junípero, o Irmão Masseo e o Irmão Illuminato. Em 1212, a Ordem foi enriquecida com a primeira mulher, Clara d'Ofreducci, oriunda de uma nobre família de Assis, que se tornou a futura Santa Clara, fundadora do ramo feminino dos Frades Menores, as Clarissas. Não contentes com sua atuação em Assis, Francisco e seus seguidores tentaram, sem êxito, evangelizar os sarracenos na Síria e os mouros em Marrocos; em 1219, o santo esteve no Egito para encontrar-se com os cruzados em Damietta, profetizando sua derrota; em seguida, foi recebido pelo sultão Al-Kamil, ao qual cusou tamanha impressão que este lhe permitiu que pregasse aos seus súditos e solicitou que orasse por ele a fim de que Deus lhe mostrasse a melhor forma de cultuá-Lo. Dali passou à Palestina, peregrinando pelos lugares santos, onde recebeu a notícia de que a comunidade de Assis, em sua longa ausência, estava em crise.

            Chegando a Assis, observou que seus ideais haviam sido abandonados e reinava grande confusão entre os irmãos. Alguns haviam se tornado vagabundos e se associavam com mulheres, outros queriam igrejas suntuosas, ao tempo em que abandonavam o rigorismo da Regra inicial e dedicavam-se a estudos eruditos, além de solicitar favores e privilégios ao papa. Havia disputas de opinião constantes entre os frades.

            Não obstante ser contra o abrandamento da Regra original, Francisco teve de aceitar a chamada "Regra Bulada", imposta pela Bula "Solet annuere", do papa Honório III, que aceitou as ponderações do Irmão Elias, encampadas pelo Cardeal Ugolino.  O texto da Regra primitiva resultou ainda mais profundamente alterado; a maioria das citações do Evangelho e as passagens poéticas foram removidas e substituídas por fórmulas legais. O artigo que autorizava a desobediência de superiores indignos foi excluído, assim como os que prescreviam o cuidado dos leprosos, junto com todas as obrigações de pobreza absoluta. Já não se insistia no trabalho manual e se permitiu que os irmãos usassem quaisquer livros, que naquela época eram raros artigos de luxo.

            Em 14 de setembro de 1224, no dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, Francisco viu a figura de um homem com seis asas, semelhante a um serafim, e pregado a uma cruz, e à medida que continuava na contemplação, que lhe dava imensa felicidade mas era sombreada de tristeza, sentiu se abrirem em seu corpo as feridas que o tornaram uma imitação do próprio Cristo crucificado. Foi, dessa forma, o primeiro cristão a ser estigmatizado, mas enquanto isso lhe trazia alegria, sendo um sinal do favor divino, foi-lhe motivo de muito embaraço e sofrimento físico. Sempre tentou ocultar os estigmas com faixas e seu hábito, e poucos irmãos os viram enquanto ele viveu. Mas eles lhe causavam muita dor e com isso dificultavam seus movimentos, além de sangrarem com frequência. Muitas vezes teve de ser carregado por não poder andar, ou teve de viajar sobre uma mula, o que não era permitido aos irmãos por ser um luxo. Também padeceu de outras enfermidades, ficou quase cego, e as suas dores de cabeça eram terríveis, mas apesar de receber ordem de procurar tratamento, os médicos nada puderam fazer para aliviá-lo. Passou algum tempo sob os cuidados de Clara, e ali deve ter composto, em 1225, seu Cântico do Irmão Sol, mas sua condição se deteriorava diariamente, e ditou seu Testamento. Melhorou, então, e viajou para um eremitério perto de Cortona, mas ali piorou novamente, e foi levado para Assis, hospedando-se na casa do bispo em meados de 1226. Pouco depois, pediu para ser levado à Porciúncula, para que pudesse morrer entre os irmãos.

            Sentindo a morte próxima, solicitou a uma amiga romana, a nobre Jacopa de' Settesoli, que trouxesse o necessário para seu sepultamento, e também alguma comida bem preparada, que ele havia provado em sua residência, em Roma, e que deveria aliviar seu sofrimento. Foi despedir-se de Clara e das irmãs em São Damião e voltou a Porciúncula, deu instruções para ser sepultado nu, e no por do sol de 3 de outubro de 1226, depois de ler algumas passagens do Evangelho, faleceu rodeado de seus companheiros, nobres amigos e outras personalidades. As fontes antigas dizem que nesse momento um bando de aves veio pousar no telhado e cantou. Logo em seguida o Irmão Elias notificou a todos de seu desaparecimento e divulgou sua estigmatização, até ali mantida em sigilo, seu corpo foi examinado por muitas testemunhas a fim de comprová-lo, e o povo de Assis e dos arredores acorreu para prestar-lhe sua última homenagem.

Foi enterrado no dia seguinte na igreja de São Jorge. Menos de dois anos depois, o papa Gregório IX foi pessoalmente a Assis para canonizá-lo, o que aconteceu em 6 de julho de 1228 com grande pompa. Em 1230 foi inaugurada uma nova basílica em Assis, que recebeu seu nome e hoje guarda as suas relíquias e abriga o seu túmulo definitivo. A basílica foi decorada no fim do século XIII por Giotto di Bondone com uma grande série de afrescos que retratam a vida do santo.

            Segundo a descrição deixada por Tomás de Celano, a aparência física de Francisco era extremamente agradável, e sua face refletia a inocência de sua vida, a pureza de seu coração e o ardor do fogo divino que o consumia. Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, com a face alongada e nariz reto e fino, pescoço esguio, testa plana e curta, olhos negros e límpidos, cabelos castanhos, orelhas pequenas. Sua voz era forte, doce, clara e sonora; os dentes eram unidos, alinhados e brancos, os lábios pequenos e delgados, a barba era preta e um tanto rala; seus ombros eram direitos, os braços curtos, as mãos delicadas com dedos longos, as pernas delgadas, pés pequenos, pele fina e sempre muito magro. Sua visão de si mesmo era, porém, oposta: descrevia-se como um "franguinho preto", e o retrato pintado no Fioretti segue a mesma linha, mostrando-o como um homem miúdo de aspecto muito desprezível e vil e que por esse motivo nunca conseguia muitas esmolas entre gentes que não o conheciam.

            Considerações finais

            Mais tarde, a Ordem se dividiu em três ramos: Ordem dos Frades Menores (OFM), Capuchinhos (OFMCap) e Conventuais (OFMConv).

            Os Capuchinhos surgiram por volta de 1525, quando Matteo da Bascio, originário da região de Marche, na Itália, um Franciscano, se deu conta que a roupa vestida pelos Franciscanos não era do mesmo tipo que a vestida por São Francisco de Assis. Assim, ele fabricou um capuz pontudo e começou a andar como um itinerante. Logo após se juntaram a ele o frei Ludovico de Fossombrone e seu irmão, frei Rafael Tenaglia. O primeiro era padre, e foi quem proporcionou a realização da Reforma.

            Seus superiores tentaram suprimir essas inovações, mas, em 1528, conseguiram obter uma bula do Papa Clemente VII, que lhes foi favorável. Foi-lhes dada a permissão de viver como eremitas, de vestir-se com o novo hábito, usarem barba, além de gozarem dos mesmos direitos dos camaldulenses. Essas permissões não foram dadas somente a eles, mas também a todos que quisessem se juntar aos mesmos, a fim de restaurarem a obediência à Regra de São Francisco.

            Os franciscanos Conventuais estão reunidos numa fraternidade conventual propriamente dita, com a finalidade de favorecer uma maior devoção, uma vida mais ordenada, um ofício divino mais solene, uma melhor formação dos candidatos ao estudo da teologia e às outras obras de apostolado ao serviço da Igreja de Deus, e assim, se estenda o reino de Cristo em toda a terra, sobretudo sob a protecção da Virgem Imaculada.

            Existe, ainda, a Ordem Franciscana Secular, mais conhecida como Ordem Terceira de S. Francisco, aprovada pelo papa Honório III, em 1221, que reune homens e mulheres, casados e solteiros, que buscam viver os ideais de S. Francisco.

            Em 1999 a importante revista norte-americana “Times” quis saber de seus leitores qual a personalidade mais importante do milênio findante. E os leitores tiveram a tarefa de passar em revista o elenco dos milhares de gênios, heróis, santos, sábios, artistas, papas, governantes ao longo destes mil anos.

            Ele superou o cientista da Teoria da Relatividade, Albert Einstein, em 10º lugar; precedido por Wolfgang Amadeus Mozart, 9º lugar, que encheu o milênio com divinas harmonias; num honroso 8º lugar aparece Thomas Jefferson, o herói da independência dos Estados Unidos, sendo superado pelo imortal dramaturgo inglês William Shakespeare, 7º lugar. O cientista Galileu Galilei, 6º lugar, surpreendeu a comunidade científica ao provar que era a Terra que girava ao redor do Sol e não o contrário, obteve colocação melhor que Martinho Lutero, 5º lugar, o monge alemão que dividiu para sempre a Cristandade. Miguelângelo Buonarroti - autor da Pietá e Moisés - foi eleito como a 4ª personalidade do milênio. Cristóvão Colombo, o descobridor do Novo Mundo, ficou em 3º lugar. A 2ª colocação foi dada ao alemão João Guttenberg, o inventor da imprensa. E, surpreendentemente, em 1º lugar, como a personalidade mais importante daqueles mil anos, o meigo, humilde, santo e genial Francisco de Assis, fundador da Ordem Franciscana. Pelo seu extraordinário amor às criaturas e à natureza, foi proclamado patrono do movimento ecológico.

            Ao final, cabe-me fazer a seguinte indagação: o que fez Francisco ser tão universalmente admirado e venerado por uma multidão de fãs, independentemente de cultura, raça, sexo e crédo religioso ? A resposta parece ter sido dada por Donald Spoto em seu excelente livro "Francisco de Assis, o Santo Relutante": (...) "O aspecto mais provocante de Francisco de Assis, afinal, é a absoluta seriedade de sua vida. Ele arriscou tudo para ganhar mais do que simplesmente alguma coisa; à medida que sua vida se tornava mais problemática, mais complicada e mais dolorosa, ele se manteve mais concentrado não em si mesmo, mas em Deus. Começou com Deus e ali encontrou a verdade de todos e de tudo. Essa é a lógica mais profunda de seu "Cântico do Irmão Sol", que parte do louvor das coisas e daqueles que perdoam até a aceitação da Irmã Morte."

            Como, segundo Jesus Cristo, "os humildes serão exaltados", Francisco foi eleito "o homem do milênio", além de ser o santo mais biografado da Igreja Católica, o que tem maior número de igrejas dedicadas ao seu nome, além de ser amado por cristãos e não cristãos e, quase 800 anos após a sua morte, constituir um paradigma para os tempos atuais.

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